
REPORTAGEM
André Luis da Silva
Amanda Oliveira Matos
Ao analisar o contexto contemporâneo de nosso país, nos esbarramos com nossas raízes e com assuntos que atiçam nossa curiosidade. Assistimos todos os dias cenas que nos causam espanto e tristeza como se fosse um filme. Os personagens são da vida real e o roteiro é totalmente improvisado, escrito por quem sonha de olhos abertos e muitas vezes fecha os olhos para realidade.
E é justamente por fechar os olhos que só vislumbramos na imensidão deste Brasil verde amarelo o que nos é apresentado. Na Terra do futebol é possível contemplar crianças que se inspiraram em Pelé e outras que hoje se espelham em Neymar como referenciais de esforço, superação e conquista. Só que as coisas são bem mais complexas do que é colocado na Telinha e quando se acorda para vida o que resta pela frente é a dura realidade de milhões de brasileiros.
Na vida real o espelho reflete a outra face da moeda. É preciso esforço para superar as frustrações cotidianas e aprendizado para conquistar sonhos possíveis. E isto não quer dizer que seja uma jornada fácil. Pois no Brasil real, o sonho de muitos é a realidade de poucos quando o assunto é a educação, principalmente se tratando de ensino superior.
A jovem acadêmica Jakeliny de Sousa Amaral mora na cidade de Palmeiras de Goiás, à cerca de 100 km de Goiânia. Ela sempre estudou em escolas conveniadas ou pública durante o ensino básico, fundamental e médio, cujo o ensino é limitado aos investimentos do governo, não importa de qual seja a esfera.
Já no ensino superior a história e as dificuldades são outras. Foi em 2015, no sistema de ensino privado na capital que Jakeliny deu início a batalha para conquistar aquilo que um dia sonhou. Ela compõe a turma do 9° período noturno do curso de Direito na Universidade Salgado de Oliveira.

“Bom, eu escolhi Direito por uma questão de afinidade, eu gosto bastante e gostei mais ainda depois que comecei a cursar”, revela a estudante em tom de voz pacífico numa entrevista realizada via aplicativo de conversa.
TUDO PELO SONHO
De segunda a sexta-feira Jake como é conhecida e vários colegas saem ás 16:00 horas de ônibus de Palmeiras de Goiás rumo a cidade grande.De ida e volta são 200 km por dia. Em uma semana ela percorre cerca de mil quilômetros, no mês os quilômetros rodados chegam a 4 mil, no semestre (seis meses) são 24 mil. E como já está cursando o 9° período e de olho na formatura, já deixou para trás quase 200 Mil quilômetros, seria o mesmo que ela dar a volta ao mundo por 5 vezes mesmo estando sempre em seu país.
Mesmo com todo este esforço a futura advogada, que será doutora para muitos, carrega sempre um sorriso no rosto e ao ser questionada sobre as dificuldades enfrentadas para permanecer na vida acadêmica, se expressa de forma determinada;
“Bom sinceramente eu não vejo dificuldades porque eu almejo muito a minha formação, então, acho que a gente tem que sobrepujar as dificuldades. Mas o fato de ter que deslocar de Palmeiras para Goiânia todos os dias é um tanto quanto cansativo eu admito! Mas não considero uma dificuldade não! O valor também seria uma dificuldade, mas a gente precisa estabelecer prioridades na vida né!”.

"EU NUNCA PENSEI EM DESISTIR"
Jake conta que nunca pensou em desistir. Até o quinto período, a jovem estudante não recebia nenhuma ajuda do governo para custear a mensalidade do curso que escolheu. Depois deste período foi contemplada com uma bolsa da Organização das Voluntárias de Goiás (OVG). O transporte até Goiânia é pago em parte pelos acadêmicos, pouco mais de 20%, e o restante é pago pela Prefeitura de Palmeiras de Goiás. Ela acredita que se o valor do transporte tivesse que ser pago integralmente pelos acadêmicos, muitos não conseguiriam arcar com a mensalidade da faculdade e todos os custos que ela gera.
É Pela falta de tempo e pela impossibilidade que muitos enfrentam para participar de cursos presenciais que a modalidade de ensino a distância (EAD) vem se tornando cada vez mais comum.

O número de pessoas que conseguiram concluir o ensino superior e ter acesso ao diploma é muito pequeno se comparado com o total de habitantes em nosso imenso País. Jakeliny se forma este ano e também fará parte deste pequeno grupo de brasileiros. Ao fazer uma breve análise sobre este assunto complexo, ela menciona com sinceridade;
“Olha, eu acho que hoje, talvez uma das questões que impeça que todos tenham acesso ao ensino superior, de fato sejam as condições financeiras. Muita gente não tem mesmo como pagar, e nós sabemos que em faculdade pública, universidade pública é mais difícil o acesso, pelo fato do ensino, embora tenha uma grade curricular comum nacional. O ensino de algumas escolas são superiores à escolas públicas. E muitos tem condições apenas de estudar em escola pública. Então eu acho que as condições financeiras é um dos fatores que mais impedem que as pessoas possam ingressar na faculdade”.

O sorriso largo facilmente encontrado no rosto de Jakeliny também representa bem a expressão de esperança de quem não teve acesso as mesmas oportunidades.
Mariana Eulália Cornellas de Araújo de 20 anos é a protagonista desta história que representa a realidade social de grande parte da população brasileira.
Terminou o ensino médio aos 16 anos recheada de inocência sobre a vida acadêmica. Era absolutamente manipulada pela certeza de que daria tudo certo em sua jornada, pretendia estudar o necessário para ser uma esteticista reconhecida. Só não contava com as dificuldades financeiras para concluir o seu desejado curso de estética e cosmética.
Havia pouco conhecimento da jovem em relação aos programas governamentais voltados a educação para que ela pudesse continuar seus estudos por meio da OVG, FIES ou PROUNI. Naquela época esses programas eram menos divulgados. Mas de certa forma, ajudaram pessoas menos favorecidas social e economicamente a ter acesso ao ensino superior, contribuindo para melhoraria das condições de vida de milhares de famílias.
DEIXANDO PARA DEPOIS
Por morar com os pais, nunca tinha trabalhado, seguia a rotina de muitos adolescentes que vivem em baixo das asas de seus superiores. O apoio financeiro familiar era necessário para arcar com as mensalidades de seu curso na Faculdade Cambury.
Com o passar do tempo esta contribuição sessou, Mariana, precisou procurar emprego para tentar se manter sozinha em sua graduação. Foram mais de dois anos deixando currículo em diferentes setores trabalhistas até uma oportunidade surgir.
Jovens como ela vivem uma intensa rotina entre o trabalho e os estudos com o objetivo de melhoria de vida. Mas para quem achou que a solução estava em conseguir um emprego, percebeu que sua carga horária não batia com horários de estudos e nem mesmo de diversão. Seu trabalho exigia a maior parte de seu tempo. Por necessitar do emprego para sobreviver, Mariana se vê obrigada a adiar o seu sonho de concluir o ensino superior.
“EM TEMPOS DE CRISE, NÃO DÁ PARA ESCOLHER SERVIÇO”
Já se passaram mais de três anos desde que a jovem sonhadora desistiu do curso de estética e cosmética. Hoje, Mariana trabalha como vendedora autônoma e ainda carrega consigo o desejo ter uma graduação. No entanto, os planos mudaram com o tic-tac do relógio. Agora é na área Administrativa que a protagonista desta história pretende atuar.
Trancar a faculdade e voltar mais tarde em outro curso, ou nem mesmo voltar a estudar é comum entre a população brasileira. Retomando a debates dos sonhos de infância, a carreira de sucesso que se pretende seguir quase sempre é barrada por problemáticas sociais.
OLHAR DE PROFISSIONAL
A Coordenadora e Professora do curso de Pedagogia Kátia Braga Arruda comenta a maior dificuldade para se concluir o ensino superior é, de fato, ter que conseguir trabalhar e estudar.
“Boa parte da população brasileira não consegue concluir o ensino superior por falta de condições, forças das circunstâncias. Não há vagas suficientes nas instituições públicas e as vagas de ensino superior privada nem sempre conseguem o fomento para a mensalidade de bolsas para as pessoas que não tem condição de garantir a mensalidade, e a realidade de ser um público trabalhador. Essa é uma situação difícil, pois ingressa no ensino superior, mas não consegue concluir.”
A professora de Letras Ana Cristina Moraes dos Santos Neves, também segue o mesmo raciocínio, pontuando desde os princípios da educação familiar a formação adulta. Afirmando que, cabe a classe social financeira de cada pessoa para uma formação gradual.
Vale ressaltar que o governo deve intervir em apoio tanto aos jovens, quanto aos pais. A professora propõe a criação de mais oportunidades de trabalho aos pais, para que assim possam ter condições de dar uma educação social e cultural mais válida e saudável aos filhos e por consequência estes consigam ingressar e concluir a graduação. Não só apenas o governo, mas todas as instituições educativas deveriam auxiliar no apoio ao incentivo de todos.
RAÍZES DO ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO
A trajetória do ensino superior no Brasil se mistura com a própria história do nosso País. O Professor Titular de Urologia, Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto-USP, Antônio Carlos Pereira Martins, escreve em seu artigo Ensino superior no Brasil: da descoberta aos dias atuais, que com a chegada da família real portuguesa ao Brasil em 1808, foram fundadas as primeiras escolas de ensino superior.
Foram criadas as escolas de Cirurgia e Anatomia em Salvador que hoje é a Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Também foi fundada a escola de Anatomia e Cirurgia, no Rio de Janeiro, atual Faculdade de Medicina da UFRJ e a Academia da Guarda Marinha, também no Rio. Depois de dois anos, foi criada a Academia Real Militar, atual Escola Nacional de Engenharia da UFRJ. Em 1814 surgiram os cursos de Agricultura e a Real Academia de Pintura e Escultura.
O Professor Antônio Carlos Pereira Martins descreve que o ensino superior pouco evolui até a proclamação da República em 1889. Se utilizava um modelo de formação dos profissionais liberais em faculdades isoladas, e tinha por objetivo garantir um diploma profissional com direito aos postos privilegiados em um mercado de trabalho restrito, além de assegurar prestígio social. Apesar de não seguir um formato universitário de ensino, a formação superior era de alta qualidade. Os cursos tinham longa duração e o nível dos professores devia se equiparar aos da Universidade de Coimbra.
A elite que tinha nas mãos o poder político da época não via vantagens e não se preocupava com mudanças no formato de ensino, nem se quer na possibilidade de sua ampliação ou diversificar o que era ofertado. Foram propostos 24 projetos para criação de universidades no período de 74 anos, entre 1808-1882, só que nenhum destes foi aprovado.
A partir de 1850 já era possível observar uma discreta expansão do número de instituições de educação com consolidação de alguns centros científicos como o Museu Nacional, a Comissão Imperial Geológica e o Observatório Nacional. O crescimento do ensino superior, limitado às profissões liberais em poucas instituições públicas, era contida pela capacidade de investimentos do governo central e dependia de interesse político.
Dando sequência a exposição do artigo Ensino Superior no Brasil: da descoberta aos dias atuais do Professor Antônio Carlos Pereira Martins, até o século XIX existiam apenas 24 estabelecimentos de ensino superior no Brasil com cerca de 10.000 estudantes.
A partir daí, a iniciativa privada entrou em cena e criou seus próprios estabelecimentos de ensino superior graças à possibilidade legal disciplinada pela Constituição da República de 1891. As instituições privadas surgiram da iniciativa das elites locais e confessionais católicas. O sistema educacional paulista surgiu nesta época e representou a primeira grande ruptura com o modelo de escolas submetidas ao controle do governo central.
Dentre os cursos criados em São Paulo neste período, podemos citar os de Engenharia Civil, Elétrica e Mecânica criados em 1896, atual Universidade Mackenzie, que é confessional presbiteriana. Nos 30 anos seguintes, o sistema educacional apresentou uma expansão considerável, passando de 24 escolas isoladas a 133, 86 das quais criadas na década de 1920.
Nesta fase o debate sobre a criação de universidades não era apenas político, controlado pelo Estado, como havia sido no passado. Mas, ao conceito de universidade e suas funções na sociedade, que eram de abrigar a ciência, os cientistas e promover a pesquisa. Naquela época, o Brasil contava com cerca de 150 escolas isoladas e as 2 universidades existentes, a do Paraná e a do Rio de Janeiro.
Foi com base nestes debates que o governo provisório de Getúlio Vargas promoveu em 1931 a ampla reforma da Educação, que ficou conhecida como Reforma Francisco Campos, que era o primeiro Ministro da Educação do país naquele período, autorizando e regulamentando o funcionamento das universidades, inclusive a cobrança de anuidade, uma vez que o ensino público não era gratuito.
A universidade deveria se organizar em torno de um núcleo constituído por uma escola de Filosofia, Ciência e Letras. Embora a reforma representasse um avanço, ela não atendia a principal bandeira do movimento da década de 1920 por não dar exclusividade pública ao ensino superior além de permitir o funcionamento de instituições isoladas.
Uma disputa intensa entre lideranças laicas e católicas pelo controle da educação caracterizou o período de 1931 a 1945. Em troca do apoio ao novo regime, o governo ofereceu à Igreja a introdução do ensino religioso facultativo no ciclo básico, o que de fato ocorreu a partir de 1931. As ambições da Igreja Católica eram maiores, o que levou a iniciativa da criação das suas próprias universidades na década seguinte.
Outro período que vale a pena ser lembrado e é exposto no artigo do Professor Antônio Carlos Pereira Martins, é o de 1945 a 1968, marcado pelo movimento estudantil. A luta de estudantes e de jovens professores em defesa do ensino público, do modelo de universidade em oposição às escolas isoladas. Eles reivindicavam a eliminação do setor privado de ensino. Esse debate permeou a discussão da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, aprovada pelo Congresso em 1961, que de maneira diversa da reforma de 1931, não insistia que o ensino superior deveria organizar-se preferencialmente em universidades. Para os "reformadores" a LDB de 1961 representou uma derrota e foi considerada uma vitória dos defensores da iniciativa privada, acenando a bandeira da liberdade do ensino.
O Professor destaca ainda, que em 1960, existiam 226.218 universitários, sendo que 93.202 eram do setor privado e 28.728 excedentes (aprovados no vestibular para universidades públicas, mas não admitidos por falta de vagas). Já no ano 1969 os excedentes somavam 161.527. A pressão de demanda levou a uma expansão extraordinária no ensino superior no período 1960-1980, com o número de matrículas saltando de aproximadamente 200.000 para 1,4 milhão. No final da década de 1970 o setor privado já respondia por 62,3% das matrículas, e em 1994 por 69%.
A opção do setor público por universidades que aliassem o ensino à pesquisa elevou os custos do ensino público, restringindo sua capacidade de expansão, e abriu o espaço para o setor privado atender a demanda não absorvida pelo Estado.
Na década de 1990, a proporção de jovens entre 20 e 24 anos que ingressa no ensino superior correspondia a 11,4%, conferindo ao Brasil o 17º lugar entre os países latino-americanos, superando apenas a Nicarágua e Honduras. Não é uma posição honrosa que como se comentou não é condicionada por falta de vagas no ensino superior, mas pelo número de egressos do ensino secundário.
As deficiências do ensino público fundamental têm sido supridas parcialmente pela excelente qualidade do ensino nos estabelecimentos privados. Mas, esta solução de mercado discrimina a numerosa população menos favorecida, que assim permanecerá enquanto não houver melhora da distribuição de renda, do ensino público fundamental e mercado de trabalho mais amplo.
AINDA EXISTE ESPERANÇA
Para mudar esta dura sina, nossas personagens da vida real esperam que o governo possa traçar estratégias para que o ensino superior público e gratuito seja mais acessível e que também seja mais justa a disputa para acessar uma vaga em Instituições de ensino superior do poder público nos mais diferentes níveis.
Desta forma o Brasil de Jake também será o mesmo de Mariana e de tantos outros brasileiros que sonham mesmo em meio a realidade que muitos governantes tentam ignorar.

